31.1.05

um filme


foram apenas 30 dias, mas "antes do pôr-do-sol" foi o melhor filme que vi neste ano. adorei a história do jovem casal que se reencontra nove anos depois de um dia muito especial, caminhando por paris, durante poucas horas, para conversar sobre o que aconteceu há tanto tempo. assisti, ontem, ao filme que conta justamente o primeiro encontro. o dvd de uma amiga me salvou da gigantesca lista de espera da 2001, da paulista. "antes do amanhecer" é mais romântico. não no sentido açucarado da palavra, mas no filme ainda estão os sonhos, a crença no amor e nos relacionamentos, a confiança na juventude. "antes do pôr-do-sol" é mais amargo. bem mais. nele já estão as decepções, os relacionamentos frustrados, a realidade dos trinta e poucos anos. com um texto impecável, o filme é um dos olhares mais sinceros do cinema sobre o amor e a passagem do tempo.

29.1.05

maldita flor


a vida um caos e ela ali, achando que aquele vaso com flor amarela, no canto do quarto perto da janela, amenizava seus problemas. olhava para ele e acreditava que o pequeno objeto trazia sossego no meio de todo aquele inferno. revistas empilhadas, discos desarrumados. dois livros lidos pela metade e abandonados quase no mesmo canto. meia xícara de café, gelado em 48 horas. camisetas pretas para dobrar, jeans para guardar. preguiça. naquele dia, percebeu que tinha tudo e não era feliz. guardou a auto-estima dentro do armário, trancou e foi dormir chorando. acordou com os olhos inchados. procurou a chave do armário entre as coisas desarrumadas. entre as coisas empilhadas. entre aquele caos que refletia sentimentos. não havia mais chave. sentada no canto do quarto, com o pequeno vaso no colo, arrancou pétala por pétala da pequena flor amarela. presente. de olhos fechados, cabelos despenteados, teve força apenas para gritar com a cabeça pra fora da janela. berrar, perguntando para a cidade cinza, já amanhecida, por que só mal-me-que naquela maldita flor?

27.1.05

rumos


o que se faz, afinal, quando algumas coisas estão caminhando para o lado errado? justo para o contrário do que você desejava? pode-se considerar algo positivo perceber isso antes do fim? o que se faz, afinal, quando não se pode mais puxar essas coisas de volta? berrar, com a mão-em-concha na frente da boca, para que retornem para onde estavam e recomecem no sentido correto? o que se faz quando se percebe que no fim do caminho-errado, existe um buraco daqueles bem grandes? quando você se dá conta de que tudo o que sempre achou que merecesse um outro destino deve terminar mesmo dentro dele? o que se faz quando se percebe que todos as placas e retornos ficaram para trás? quando se descobre que os últimos desvios da estrada ficaram há alguns quilômetros? difícil sentir-se impotente mas um pouco aliviado por, pelo menos, ter se dado conta dos rumos-errados. difícil reconhecer que você quase sempre é culpado pela viagem que certas coisas da vida fazem com destino ao grande buraco.

26.1.05

dilúvio


do lado de fora, a chuva não pára. um dilúvio alaga quase toda a cidade. do lado de dentro, apenas um banheiro. é no pequeno espaço que são obrigados a conviver, por dias e noites, dois personagens. famosa, mas já com um traço de decadência, uma modelo posa não para um pintor, mas para um escritor. numa situação inusitada, a idéia é que ela sirva de inspiração para uma grande obra. o melhor livro já publicado. fui ver "dilúvio em tempos de seca" no fim de semana. a peça é uma espécie de metáfora das relações humanas. o espetáculo, de marcelo pedreira, com direção do premiado aderbal freire filho, traz giulia gam e wagner moura como dois personagens, abrindo ao público suas mais extremas intimidades. duas pessoas impedidas de se comunicar com o mundo exterior por causa da droga, da bebida e da chuva torrencial. duas pessoas impedidas de se entender, mesmo frente a frente, por causa da incapacidade de se comunicar de forma plena. "dilúvio em tempos de seca" mostra a solidão do ser humano. a busca de duas pessoas por uma solução redentora que as salve de uma situação de enclausuramento, enquanto o mundo termina debaixo de chuva, como se a vida chorasse sua própria perda.

25.1.05

mudança


casa nova. paredes descascadas cobertas por outra tinta. cheiro forte. chão limpo. nada de tapetes. janelas ainda sem cortinas. início de noite cinzento do outro lado do vidro. vinte horas e trinta minutos de chuva. talvez um dia ruim pra mudanças. mas sou teimoso. deixei rastros de pés molhados no chão. pistas para quem quiser me seguir. comigo, trouxe poucas coisas. peças de roupas vestidas. livro pela metade. dois CD's sem caixa. gosto de recomeços. da casa antiga, quase nada. apenas o armário empoeirado com duas gavetas. uma vazia e outra pronta para ser aberta. sacudida sobre esse chão que, ainda limpo, reflete meu rosto.