do lado de fora, a chuva não pára. um dilúvio alaga quase toda a cidade. do lado de dentro, apenas um banheiro. é no pequeno espaço que são obrigados a conviver, por dias e noites, dois personagens. famosa, mas já com um traço de decadência, uma modelo posa não para um pintor, mas para um escritor. numa situação inusitada, a idéia é que ela sirva de inspiração para uma grande obra. o melhor livro já publicado. fui ver "dilúvio em tempos de seca" no fim de semana. a peça é uma espécie de metáfora das relações humanas. o espetáculo, de marcelo pedreira, com direção do premiado aderbal freire filho, traz giulia gam e wagner moura como dois personagens, abrindo ao público suas mais extremas intimidades. duas pessoas impedidas de se comunicar com o mundo exterior por causa da droga, da bebida e da chuva torrencial. duas pessoas impedidas de se entender, mesmo frente a frente, por causa da incapacidade de se comunicar de forma plena. "dilúvio em tempos de seca" mostra a solidão do ser humano. a busca de duas pessoas por uma solução redentora que as salve de uma situação de enclausuramento, enquanto o mundo termina debaixo de chuva, como se a vida chorasse sua própria perda.