25.2.05

trainspotting


de férias, longe da redação do prédio azul, colocando a leitura em dia. terminei. trainspotting, do escocês irvine welsh, lançado por aqui recentemente, é muito melhor do que o filme, transformado em cult pelo cineasta danny boyle. a história de rents, sick boy, spud e turma é bem mais pesada e dramática no livro, que possui um ceticismo muito mais amargo e um humor muito mais ácido do que o filme. aluguei o DVD, logo depois de terminar o livro, e acabei me decepcionando um pouco com a forma com que os personagens estão retratados. vale pela trilha sonora, excelente. mas entre livro e dvd, fique com o primeiro.


"o papel de parede é horroroso neste quarto que mais parece uma fossa. ele me apavora. algum velho pé-na-cova deve ter colado isso há anos... bem conveniente, porque é isso que sou, um pé-na-cova, e meus reflexos não estão melhorando nem um pouco. mas está tudo aqui, ao alcance das minhas mãos suadas. seringa, agulha, colher, vela, isqueiro, pacotinho com o pó. tuda está bem, tudo é lindo. mas temo que esse mar interno vá escorrer em breve, deixando a merda venenosa para trás, encalhada no meu corpo."

22.2.05

sobrevôo


medos. olho ao redor e eles estão por todos os lados. como espantalhos de braços abertos, espalhados pelo milharal. pequeno pássaro, eu só queria ignorá-los pra poder sobrevoar pelo menos uma vez todo esse campo amarelo.

18.2.05

buraco


assim, agachado no canto, posso ver melhor o quarto. encostado nesse encontro de duas paredes, posso vê-lo inteiro. há dias o sol não bate aqui dentro. tenta entrar pelas frestas da janela, mas não deixo. fecho as cortinas na cara dele. atrevido, o sol. as paredes só devem ser pintadas pelo novo dono. quando a casa estiver abandonada de uma vez. por enquanto, vão permanecer com essas marcas. com os rastros dos meus arranhões pelo concreto, na horizontal. não há mais espaço para eles. ainda há tinta debaixo das minhas unhas. daqui a pouco, cimento e terra. começo a cavar o buraco neste canto hoje. ainda não sei onde vou chegar. mas eu só preciso fugir daqui.

15.2.05

puçanga


andam falando dela por aí.

A Puçanga de Nelson de Oliveira em São Paulo

o lançamento é amanhã. apareça. livraria da esquina. rua caetés, 489. perdizes. às 19h.

12.2.05

zero grau de libra


entre as coisas da gaveta, um texto sempre por cima dos outros papéis:

"o sol entrou ontem em Libra. e porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque libra é a regência máxima de vênus, o afeto, porque libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. nesse zero grau de libra, queria pedir a isso que chamamos de deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de são paulo. um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. eu queria o olho bom de deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. o olho piedoso de deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da catarina à eliete"? e o outro grunhe em resposta. deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o cvv. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete moon over bourbon street, na voz de sting, e chora. coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. olha também pela multidão sob a marquise do mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem. não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na bela vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da república do líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos jardins. sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. não. derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, deus, e afia tua espada. que no zero grau de libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu sol mais luminoso, esse zero grau de libra. sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."



[caio fernando abreu]

11.2.05

encontros


era em um dos cômodos da casa do escritor mário de andrade, hoje um espaço para atividades culturais, que elas se reuniam. duas vezes por semana, durante dois meses, vinte pessoas ocupavam o espaço para discutir literatura e colocar em prática uma de suas paixões: a escrita. os textos nasciam depois leituras, de intensas discussões e antes de sinceras críticas. ainda nem se imaginava que parte do que estava sendo produzido iria sair do sobrado amarelo da rua lopes chaves para virar uma revista. puçanga é uma poção mágica receitada por pajés, após consulta aos espíritos, para curar doenças ou afastar malefícios. puçanga foi o nome escolhido para a revista que vai ser lançada na próxima quarta-feira. entre os autores, um que você já conhece.

organização: nelson de oliveira. lançamento: 16 de fevereiro, às sete da noite, na livraria da esquina: rua caetés, 489, perdizes. autores: ana beth meyer, denis ferreira, dóris fleury, eduardo baszczyn, eliane araki, geraldo conti, ivone galdino, lorenzo ferrari, luís vassallo, luiz tomaz clete, regina pimentel, rogério augusto, rubens cavalcanti, severino batista, sônia manski, tatiana carlotti, valdete pereira, vera cayetano, vinícius holanda.

7.2.05

embolado


palavras. um monte. como se alguém tivesse jogado um punhado delas aqui dentro e chacoalhado minha cabeça. com força. e me deixado virado. acontece também com idéias. mas hoje só com palavras. verbos. adjetivos. pronomes e afins. todos juntos. misturados. sobrepostos. é preciso organizar tudo. escrever. montar com o embolado de palavras frases subordinadas. assindéticas. revelar sujeitos ocultos, esconder determinados. transformar passivas em ativas. refazer. mudar. tem dias em que escrever torna-se coisa difícil. dias em que palavras emboladas custam a voltar pro lugar.