30.3.05

pacto


sem dedo furado
sem sangue encostado
fico apenas com a sua promessa
dita assim mesmo
no espaço entre os beijos
no intervalo entre os apertos
no encontro rápido
quando pouco se fala
quando muito se quer
quando sem pactos ou rituais
fico apenas com a sua palavra
acalmando e garantindo
que haverá uma outra vez

26.3.05

poema


encontrei o poema dentro de um velho caderno. página destacada e dobrada, entre outras anotações. escrito numa tarde de novembro do ano passado, já esteve em um blog antigo. por aqui, ainda não.

não adiantava podar, regar, replantar.
a vida dela já era raiz morta.
ramificações apodrecidas.
caule comido por cupins.
folhas arrancadas por criança maldosa.
não adiantava colocar no canto da janela
debaixo do sol. forçar fotossíntese.
a vida dela era fruto bicado por passarinho.
maçã caída na grama molhada.
vaso novo não resolveria.
nem jardinagem de última geração.
para viver de novo, ela sabia
só voltando a ser ppequena semente.

8.3.05

morte em veneza


"a arte é uma vida elevada. ela traz uma felicidade mais profunda e um desgaste mais acelerado. grava no rosto de seu servidor os traços de aventuras imaginárias e espirituais e, com o tempo, mesmo no caso de uma vida exterior de uma placidez monástica, provoca uma perversão, um refinamento, um cansaço e uma excitação dos nervos, que mesmo uma vida cheia de paixões e prazeres desvairados dificilmente poderia produzir"

depois de procurar em uma supermegalivraria, acabei encontrando morte em veneza, há algum tempo, em uma pequena banca-sebo perto da redação do prédio azul. deixei para ler o livro, agora, nas férias e só posso dizer que é impossível abandoná-lo, mesmo por algumas horas. nele, está uma reflexão apurada sobre a decadência física e moral, a paixão e a morte. livro daqueles para se ler de uma vez só. como thomas mann me obrigou a fazer, na tarde de ontem.

2.3.05

autocrítica


chove demais no que eu escrevo. não há espaço para céu limpo. a cidade é sempre cinza. o vento sempre leva alguma coisa. os cabelos. um papel. uma barra de vestido. há dor demais no que eu escrevo. não existem amores perfeitos. a lágrima é sempre de saudade. as fotos estão rasgadas. as frases no avesso. na cama, sempre sobra um maldito travesseiro. só há lugar para cd's úmidos, tocando pelo apartamento. letras tristes. rimas imperfeitas. há exagero demais no que escrevo. tempestades em copos pequenos. gritos. berros. palavrões. calúnias. traições. há mentiras demais. arrependimentos demais. minha vida. demais. talvez por isso, e apenas por isso, seja preciso colocar uma outra e não a minha, naquilo que escrevo.

1.3.05

tempestade


descalça, andou pela grama molhada, sentindo a água fria entrando pelo meio dos dedos dos pés. queria ver como tinha ficado o céu depois da chuva do fim de tarde. procurou por todo o cinza. nada. voltou para casa com a certeza de que tinha sido o vento quem havia desfeito e levado embora a nuvem em forma de coração, que observava, deitada na grama ainda seca, um pouco antes da tempestade.