29.6.05

certeza


foi depois de tomar o terceiro gole, sem copo, na própria garrafa, que você sorriu e prometeu. seria pra sempre, mentiu, me olhando nos olhos. a bebida ficou com seu gosto. vinho guardado na geladeira. hoje dei o último gole. garrafa vazia. último contato com a sua boca. certeza, finalmente, de que me deixou.

27.6.05

regurgitofagia


"casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. a mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada. a mais bem comida. e a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. e a mais festas, viagens, jantares. casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. e a mais grávida e a mais mãe. e a pessoa mais primeiras discussões. a pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. te faço a pessoa mais solitária com filho para criar do mundo. a pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. a mais reconstruiu sua vida. a mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente. casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais infeliz do mundo"

Não assisti à peça, mas li Regurgitofagia no começo do ano. Foi uma amiga quem me mandou esse trecho por e-mail, o que me fez relembrar os ótimos textos do livro.

24.6.05

aniversário


ali, de cabeça pra baixo, por alguns segundos, eu até cheguei a acreditar que o mundo era mesmo daquele jeito. estranho demais. sem sentido. mesmo desvirado rapidamente, a impressão acabou ficando. até hoje. continuo achando as coisas estranhas. aquele era só o começo. e eu não sabia de nada. não imaginava que a vida seria complicada. ou que me traria momentos felizes. muitos. encontros importantes. perdas. partidas. naquele dia, eu não sabia realmente de nada. nem que conheceria o amor. ou que sofreria por causa dele. até as palavras ainda eram desconhecidas. e eu não sabia que gostaria tanto delas. que dependeria das danadas. o cara aqui realmente não conhecia nada. lugar nenhum. ninguém. fernando Pessoa era um estranho. caio Fernando Abreu ainda não era um dos escritores prediletos. eu não tinha lido nenhuma página de livro. e nem ouvia música. glory box ainda era uma canção desconhecida. radiohead ainda não tocava no som do quarto. eu não sabia de nada mesmo. nem que adoraria andar pelas apertadas ruas de roma. nem que ela se tornaria minha cidade preferida. não sabia que veria paris, da torre, como um típico turista, numa quinta-feira de outono com aquele vento no rosto. naquele dia o cara aqui não sabia de nada. não havia quase nada. nem problemas. nem dores. nem medos. nem saudades. arrependimentos. há exatamente vinte e nove anos eu ainda era aquele menino pelado, pendurado por um pé, no meio de uma sala de parto. chorando. faz tempo, mas eu me lembro. e às vezes, confesso, me sinto como se tivessem me deixado de cabeça pra baixo. acho que é por causa do mundo, que pra mim, continua estranho. bem estranho.

20.6.05

desejo


última moeda que atiro. de costas. por cima do ombro. último desejo, mais um, afogado no fundo da fonte.

18.6.05

catapulta


de tanto fazer o mesmo caminho, a grama já está morta. secou de tanto ser pisada, assim, quase todo dia. não sei quando perdi a conta de quantas vezes já aconteceu. mais uma vez, volto pro meu lugar, caminhando devagar. olhando a trilha que eu mesmo deixei pelo chão. cansado por saber que amanhã serei arrancado de casa, levado pelos braços e submetido ao mesmo ritual. catapultado pra longe, sem ter pedido. caindo onde eu não queria. em terra estranha. além dos muros. e tendo de fazer, mais uma vez, esse meu mesmo caminho de volta.

13.6.05

escolhas


ir embora ou ficar? esperar mais um pouco ou desistir? atender ou deixar tocar? retribuir o sorriso ou virar o pescoço? insistir ou deixar pra lá? fazer o mesmo caminho ou escolher um novo? dizer que não quer mais e sumir ou se entregar no primeiro reencontro? berrar ou engolir a raiva? deixar tudo como está ou mudar? e se eu tivesse feito de outro jeito? se eu tivesse chegado meia hora depois? se tivesse ficado em casa em vez de ter ido até lá? e se eu tivesse feito X em outro quadrado? tivesse dito sim pra todos os meus nãos?

"a janela da frente" me fez sair do cinema, ontem, pensando nas escolhas. nas decisões que tomamos todos os dias. em como seria a vida se eu simplesmente tivesse feito uma coisa no lugar de outra. se eu tivesse tido coragem em vez de ter ficado no meu canto. se eu tivesse ficado quieto em vez de ter feito alguma coisa. é estranho imaginar que um simples aceito no lugar de uma recusa pode mudar uma vida inteira. foi nisso que pensei enquanto subia a augusta em direção à paulista. nas minhas escolhas e suas consequências. a consciência desse poder às vezes assusta. mas é ela que também alivia, quando se sabe que se pode escolher entre ir embora ou ficar, esperar mais um pouco ou desistir, dizer sim ou não.


* este post ficou meio auto-ajuda, né? acontece.

8.6.05

flip


"escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser. e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. e agora só queria ter o que eu tivesse sido e não fui."

falta menos de um mês para a flip. como no ano passado, vou cobrir a festa. não vejo a hora de chegar com a minha malinha à simpática cidade de paraty. este ano, a escritora homenageada, durante o evento, será clarice lispector, autora desse texto.

6.6.05

irmãos


no meio do filme, eu já sabia que ele entraria para a lista dos meus favoritos. "irmãos" do francês patrice chéreau é um daqueles trabalhos que incomodam, mas agradam. o filme fala sobre abaladas relações familiares. sobre dois irmãos, com assuntos mal resolvidos, obrigados a uma nova convivência, depois de anos afastados. nele está a história de um relacionamento problemático, contado com cortes no tempo, silêncios prolongados e sensibilidade. muita sensibilidade. poderia ser apenas mais um enredo sobre doença-misteriosa-e-terminal. mais um daqueles filmes que quase sempre abusam de clichês para forçar a sua tristeza. mas este passa longe disso. abrindo mão de situações escancaradas, com pouco diálogo e muito mais olhares, toques e gestos, "irmãos" trata de um processo doloroso na relação de duas pessoas. um ótimo trabalho que revela muitas coisas, mesmo sem dizê-las.

3.6.05

cubos de gelo


"durante quatro dias segurei o choro. na noite do quinto dia, moí seis cubos de gelo, peguei a garrafa de gim e a de cherry brandy, fiz suco de limão e misturei tudo no copo, com açúcar. dois goles monstruosos, e veio, na explosão, a maldita lucidez: sheila foi o futuro que não aconteceu".

trecho de um dos 12 contos de homens com mulheres, de bernardo ajzenberg. li. gostei. e recomendo. textos curtos que exploram o difícil e complicado mundo das relações afetivas. ou você as considera simples?