ali, de cabeça pra baixo, por alguns segundos, eu até cheguei a acreditar que o mundo era mesmo daquele jeito. estranho demais. sem sentido. mesmo desvirado rapidamente, a impressão acabou ficando. até hoje. continuo achando as coisas estranhas. aquele era só o começo. e eu não sabia de nada. não imaginava que a vida seria complicada. ou que me traria momentos felizes. muitos. encontros importantes. perdas. partidas. naquele dia, eu não sabia realmente de nada. nem que conheceria o amor. ou que sofreria por causa dele. até as palavras ainda eram desconhecidas. e eu não sabia que gostaria tanto delas. que dependeria das danadas. o cara aqui realmente não conhecia nada. lugar nenhum. ninguém. fernando Pessoa era um estranho. caio Fernando Abreu ainda não era um dos escritores prediletos. eu não tinha lido nenhuma página de livro. e nem ouvia música. glory box ainda era uma canção desconhecida. radiohead ainda não tocava no som do quarto. eu não sabia de nada mesmo. nem que adoraria andar pelas apertadas ruas de roma. nem que ela se tornaria minha cidade preferida. não sabia que veria paris, da torre, como um típico turista, numa quinta-feira de outono com aquele vento no rosto. naquele dia o cara aqui não sabia de nada. não havia quase nada. nem problemas. nem dores. nem medos. nem saudades. arrependimentos. há exatamente vinte e nove anos eu ainda era aquele menino pelado, pendurado por um pé, no meio de uma sala de parto. chorando. faz tempo, mas eu me lembro. e às vezes, confesso, me sinto como se tivessem me deixado de cabeça pra baixo. acho que é por causa do mundo, que pra mim, continua estranho. bem estranho.