28.7.05

Trato


vamos combinar, então, que da próxima vez eu abandono esse papel de santa. nada de coração, sentimento ou paixão. nada dessas palavras que a gente encontra em versos e poesias de cartão mal escrito. fica combinado que, da próxima vez, você vai se divertir em outro lugar. vai torcer contra mim sentado em outra arquibancada. rir de outra piada. fica assim, então, combinado. eu não choro mais de madrugada, não me chamo mais de tonta em frente ao espelho, não borro mais com a mão o meu batom vermelho. não puxo os meus cabelos. não brigo mais. nada de gritos e palavrões. nada de portas batidas rachando as paredes aos poucos. nada de perseguições. fica combinado que eu não acredito mais em bonecos de noivos em cima de bolo cheio de creme. em fatia cortada de baixo pra cima. em goles de bebida em copos cruzados. combinado, então. eu não me derreto mais com flores no meio do dia. não acredito mais em frases quase dentro da orelha. em lambidas no pescoço. em telefonemas. não me admiro mais com laço grande em caixa de presente. fica combinado que não sou mais a boazinha, a paciente. a partir de hoje, pedra no lugar do coração. fica combinado que não haverá mais sofrimento, dor, envolvimento. a partir de hoje, abandono de vez o papel de santa. serei puta. a partir de hoje, nem beijo na boca.

27.7.05

Adeus


demissão. sem carta, papel timbrado ou firma reconhecida. apenas um pedido, um desabafo, nada por escrito. quase um grito. a decisão veio do cansaço do mesmo trabalho. da repetição. há anos, as mesmas salas, mesas, corredores. as mesmas reuniões, contatos e relações. há anos, os mesmos caminhos, cenários e trilha sonora. as mesmas desculpas, arrependimentos, promessas. as mesmas mentiras. todas iguais, há anos. o pedido foi feito de madrugada. quando o silêncio potencializava seus pensamentos. quando um punhado deles berrava dentro de sua cabeça. foi feito ontem, sem formalidades, papel timbrado ou firma reconhecida. foi em forma de desabafo, de gemido, quase um grito. antes de pegar no sono, ele pediu demissão. a Deus. ele queria uma outra vida.

24.7.05

Pássaro


Medos. Olho ao redor e eles estão por todos os lados. Como espantalhos de braços abertos, espalhados pelo milharal. Pequeno pássaro, eu só queria ignorá-los pra poder sobrevoar pelo menos uma vez todo esse campo amarelo.

22.7.05

Exploração


sozinha, ela queria ser achada. descoberta. classificada. ilha, país ou continente. ela queria ser explorada. mas não por aquele pirata. que veio, abusou, saqueou e fugiu. sumiu pelo mar agitado em busca de novas terras.

20.7.05

Reflexo


ela. cortou o cabelo, pintou de vermelho, fez tatuagem, uma borboleta. preta. no umbigo, um brinco. prata. na boca, um cigarro. light. no cinema, trocou de fila. iraniano. nunca mais Brad Pitt, comédia romântica, explosões. agora, só zoom de meia hora no olho de uma criança. sem trilha sonora. do vidro do carro, arrancou o adesivo. outro, no resto da cola. agora, ela defendia as baleias. as árvores. o lixo. jogava lata no de lata. papel no de papel. de repente, de alienada, a engajada. de blusinhas azuis, para camisetas coloridas. de coisas de lã, para casacos Adidas. do suco, para a cerveja. da Vila Olímpia, para a Vila Madalena. dois clássicos lidos pra ter assunto. um terceiro, sempre na bolsa, pela metade. no som, apenas caras de franja e bandas londrinas. coisas que via na revista. nunca mais CD de novela. ela ouvia o que os outros ouviam. lia o que os outros liam. até japonês ela agora comia. mas ela ainda não era ela. quando pequena, o que a mãe queria. vestido branco, cabelo em trança, laço, fita. festa em família, bochecha apertada, piano na sala, presente sem graça. anos até a liberdade. quando finalmente pode ser o que queria, resolveu ser como achava que os outros gostariam que ela fosse. por isso, o cabelo, a tatuagem, a borboleta. preta. por isso, o cinema, o adesivo, os clássicos. o terceiro sempre na bolsa. por isso o susto, quando se via, às vezes, sem querer no espelho. quando não se reconhecia no reflexo-surpresa. por isso, o desespero quando, sozinha, à noite, achava que não era ninguém. mas era. ela era os outros.

19.7.05

Autocrítica


chove demais no que eu escrevo. nunca há espaço para céu limpo. a cidade é sempre cinza. o vento sempre leva alguma coisa. os cabelos. um papel. a barra de um vestido. há dor demais no que eu escrevo. não existem amores perfeitos. a lágrima é sempre de saudade. as fotos estão rasgadas. as frases no avesso. na cama, sempre sobra um maldito travesseiro. no som, só há lugar para CD's úmidos. com suas letras tristes. rimas imperfeitas. há exagero demais no que escrevo. tempestades em copos pequenos. gritos. berros. palavrões. há mentiras demais. arrependimentos demais. talvez seja preciso colocar outra vida, e não a minha, naquilo que escrevo.

18.7.05

Resíduo

Hoje, nada meu. Apenas um texto dele. Da minha gaveta.

"De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco. Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco, muito pouco. Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos pouco, pouco, muito pouco. Mas de tudo fica um pouco. Da ponte bombardeada, de duas folhas de grama, do maço ― vazio ― de cigarros, ficou um pouco. Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. Se de tudo fica um pouco, por que não ficaria um pouco de mim? no trem que leva ao norte, no barco, nos anúncios de jornal, um pouco de mim em Londres, um pouco de mim algures? na consoante? no poço? Um pouco fica oscilando na embocadura dos rios e os peixes não o evitam, um pouco: não está nos livros. De tudo fica um pouco. Não muito: de uma torneira pinga esta gota absurda, meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã, este vidro de relógio partido em mil esperanças, este pescoço de cisne, este segredo infantil... De tudo ficou um pouco: de mim; de ti; de Abelardo. Cabelo na minha manga, de tudo ficou um pouco; vento nas orelhas minhas, simplório arroto, gemido de víscera inconformada, e minúsculos artefatos: campânula, alvéolo, cápsula de revólver... de aspirina. De tudo ficou um pouco. E de tudo fica um pouco. Abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória. Mas de tudo, terrível, fica um pouco, e sob as ondas ritmadas e sob as nuvens e os ventos e sob as pontes e sob os túneis e sob as labaredas e sob o sarcasmo e sob a gosma e sob o vômito e sob o soluço, o cárcere, o esquecido e sob os espetáculos e sob a morte escarlate e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes e sob tu mesmo e sob teus pés já duros e sob os gonzos da família e da classe, fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato."


[Carlos Drummond de Andrade]

12.7.05

Seca


Não. Não esse ressecamento, como ela via no espelho, esticando o canto dos olhos ou puxando a pele para cima, ao lado da boca. Era outro. Não esse ressecamento superficial que já lhe tirara o brilho do rosto. Do cabelo. Dos olhos. Era mais pra dentro. Mais profundo. Como se houvesse, bem no meio dela, uma espécie de esponja sedenta, faminta, sugando o que ainda restava. Engolindo o que conseguia, todos os dias enquanto ela dormia.



Continua aqui


11.7.05

Paraty


atualizando, então. foi bom ter ficado uma semana inteira longe de tudo. ouvindo e falando sobre literatura. bom ter caminhado pelas ruas de pedra. esbarrado em autores tentando se equilibrar sobre o chão úmido. de garoa e de chuva. foi bom ter encontrado amigos. entrevistado escritores. bom ter cochilado na rede com o livro caído no peito. bom ter conhecido autores novos. folheado obras desconhecidas. bom ter visto a noite chegando por trás das antigas construções de portas coloridas. bom ter acordado com barulho. de garoa e de chuva. bom ter ouvido os conselhos dele. bom ter atravessado a pequena ponte um monte de vezes olhando a paisagem. a igreja de um lado. a serra do outro. foi bom. muito bom saber que existem muitos outros loucos por palavras. seja pra ler um punhado delas. ou pra colocar um monte delas no papel.

4.7.05

Caos


não tranquei as portas. nem fechei as janelas. que entrem os pássaros na casa abandonada. que invadam a cozinha. quebrem os copos, batendo suas asas. que entrem na sala. rasguem os sofás com suas bicadas. que entrem no quarto escuro. façam seus ninhos na cama desarrumada. que se escondam entre os livros da estante empoeirada. que entrem os pássaros. vasculhem as gavetas. que levem meus escritos como pombos-correio. as portas estão abertas. assim como as cortinas e as janelas. que entrem os pássaros e transformem em caos a vida pacata deixada pra trás.




PS: Viajo para cobrir a Flip, nesta terça-feira. Tentarei atualizar o blog lá de Paraty, mas não garanto. A sala de imprensa é disputada e corro o risco de ser colocado pra fora por outro jornalista querendo trabalhar enquanto ocupo um dos computadores para ficar postando. Se não aparecer até segunda por aqui, garanto que estou bem. Na verdade, muito bem.

3.7.05

Dois livros


Disse que ia ler só um poema. O primeiro. Mas virei a página, li o segundo, o terceiro. Até acabar. Que o chefe da redação do Prédio Azul não me ouça - ou não me leia - mas aproveitei o nada-acontece do meu plantão pra ler o novo livro do Carpinejar. Ou os novos livros. Explico. Até metade, ele se chama Como no Céu. A capa é amarela, alegre, um girassol. A segunda parte, Livro de Visitas, tem outra capa: o outro lado da mesma flor, o verde escuro, fundo roxo e deve ser lida de trás para frente. Do final para o começo, até se chegar onde a outra terminou. No "primeiro livro" está o amor, o começo dele, a fascinação, o pra sempre. No segundo, o cotidiano e a sua crueldade, o tédio, o desgaste. Mas as duas partes acabam se interligando. Os textos conversam entre si. E talvez aí esteja o segredo do livro. Ou dos livros. Talvez aí esteja a explicação pra eu ter prometido que leria apenas o primeiro poema. E ter virado a página. E mais uma. E outra. Até o final.

"as cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua. beijadas antes de ser enviadas. sopradas. respiradas. o esforço do pulmão capturado pelo envelope, a letra tremendo como uma pálpebra. não a cola isenta, neutra, mas a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio. porque a saliva acalma um machucado. as cartas de amor deveriam ser abertas com os dentes"

1.7.05

ainda o caio


"há alguns dias, Deus – ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus –, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer – eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal – não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector – Tentação – na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou – descuidado, também – em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."


Bom, né? Foi escrito em 86 pelo Caio Fernando Abreu. É dele também o texto de "Uma Praiazinha de Areia bem Clara, ali, na Beira da Sanga", que fui ver esta semana. Texto ótimo, com final inesperado. Ator bom e montagem diferente, no subsolo do Sesc Belenzinho, com direito a descida de escadas e uma pequena caminhada até uma espécie de buraco cheio de areia. Assista, se puder.