30.8.05

Semente


não adiantava podar, regar, replantar. a vida dela já era raiz morta. ramificações apodrecidas. caule comido por cupins. folhas arrancadas por criança maldosa. não adiantava colocar no canto da janela. debaixo do sol. forçar fotossíntese. a vida dela era fruto bicado por passarinho. maçã caída na grama molhada. vaso novo não resolveria. nem jardinagem de última geração. para viver de novo, ela sabia: só voltando a ser pequena semente.

27.8.05

A.A


só por hoje, então, você fora do meu copo. na garrafa fechada, lacrada com rolha, guardada no armário. só por hoje, então, nenhum gole sequer. você longe da boca. nem seu gosto nem seu cheiro. só por hoje, eu prometo. moderação e sobriedade. nada de falta ou crise de abstinência. só por hoje, juro, não me embebedo de você.

23.8.05

Avesso


você não deve ter visto, mas eu me retorcia na cama, tentando desvirar a alma, colocada no avesso sem querer. eu me esfregava pelo colchão cheio de espumas e molas despontadas, arranhando as minhas costas. deixando marcas vermelhas. você não deve ter ouvido, mas eu chorava. pedia num gemido pra que me lavassem por dentro. pra que jogassem baldes de água e sabão pelos meus cantos. todos. pelos lugares mais escondidos, como a ponta de um dedo. você não deve saber, mas eu me sentia sujo. como se tivesse desistido de caminhar depois da chuva e parado em uma esquina qualquer, com as mãos no bolso, encostado em um poste, recebendo as poças de lama dos carros passando perto da guia, de propósito. espirrando na minha roupa, encharcando os meus sapatos, sujando o meu rosto com o que escorreu da cidade imunda. com o que veio por cada um dos canos e tubulações. com a água que lavou os telhados, as marquises, as calçadas. você não deve ter sentido, mas eu tinha um amargo na boca. nem isso você percebeu? um gosto ruim de coisas passadas. de algo apodrecido. você não sentiu o meu cheiro. nem a minha testa quente. o suor da minha febre. você não leu os meus bilhetes com letras tremidas espalhados pela casa. meus pedidos de ajuda escritos com carvão pelas paredes. as letras de imã formando socorro, na porta da geladeira. você estava ao meu lado, mas nunca me viu. por isso não pode me exigir um sorriso agora. não pode pedir pra que eu levante. por isso não pode me chamar de forte. você não me conhece. por isso não pode me olhar com essa cara e dizer que não sabia que eu estava morrendo aos poucos. por dentro.

22.8.05

Mensagens


no remexer das gavetas, há coisas que sempre emergem. como mensagens que chegam do mar, enroladas dentro de garrafas. escritas há muito tempo, parecem ter sido enviadas apenas pra que você as encontre. são suas.


"não entendo. isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. entender é sempre limitado. mas não entender pode não ter fronteiras. sinto que sou muito mais completa quando não entendo. não entender, do modo como falo, é um dom. não entender, mas não como um simples de espírito. o bom é ser inteligente e não entender. é uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. é um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

[clarice lispector]

18.8.05

Poça


depois, só vi o sol pelo reflexo. no chão. na poça d'água que a chuva deixou. ainda tinha medo de olhar para cima e encontrar nuvens pretas, depois de toda aquela tempestade.

15.8.05

Saída


que você deveria saber que eu acabei apenas desenhando esses dois riscos nos meus punhos, sem coragem de pesar a mão sobre os meus braços e fazer cortes mais profundos. que você deveria saber que esses olhos vermelhos são por chorar, escondida no banheiro, sufocando os soluços com a mão, sentada sobre o chão gelado, evitando o espelho pra não ver minha cara com maquiagem borrada e lápis preto escorrido pelo rosto, como lágrima negra até o queixo. que você deveria saber que mesmo assim, sem forças, eu joguei aquelas flores mortas do vaso e saí pra comprar um dúzia de novas, brancas. e que, na volta, eu arranquei os sapatos e acelerei descalça querendo jogar o carro contra o poste e contra o muro e contra um monte de coisas que eu vi pelo caminho. que você deveria saber que eu passei a tarde toda gritando com a cabeça enfiada no travesseiro fazendo a voz sumir aos poucos. e que eu quebrei um copo na parede da sala, manchando aquele bege, cor de nada, com o vermelho do resto de vinho. que você deveria saber que eu saí no meio da chuva, pisando poças e parando sob as goteiras e pedindo pra que um raio, apenas um daqueles todos, me acertasse em cheio. eu achei que você deveria saber que eu achei que você deveria saber um monte de coisas, antes de me deixar. que eu mandei trocar as fechaduras da porta enquanto você dormia. achei que você deveria saber que com essa chave você não vai embora. que ela não serve pra mais nada. eu achei que deveria saber que agora você só sai daqui se for por essa janela. pulando, assim, como eu.

12.8.05

Desenho


traço, esboço, rascunho.
eu sou ensaio, projeto, maquete.
eu sou rabisco, círculo aberto, desenho inacabado.
eu sou incompleto.

11.8.05

Buraco


assim, agachado no canto, posso ver melhor o quarto. encostado no encontro das duas paredes, posso vê-lo inteiro. há dias o sol não bate aqui dentro. tenta entrar pelas frestas da janela, mas não deixo. fecho as cortinas na cara dele. atrevido, o sol. as paredes só devem ser pintadas pelo novo dono. quando a casa estiver abandonada de uma vez. por enquanto, vão permanecer com essas marcas. com os rastros dos meus arranhões pelo concreto, na horizontal. não há mais espaço para eles. ainda há tinta debaixo das minhas unhas. daqui a pouco, cimento e terra. começo a cavar o buraco neste canto hoje. ainda não sei onde vou chegar. mas eu preciso fugir daqui.

8.8.05

Personagem


ele me fez atravessar o longo corredor, mas não escreveu que no final haveria uma porta para que eu fugisse. ele me fez escancarar a boca até o fim, mas esqueceu de me dar o grito.
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remexendo os papéis da gaveta - sempre cheia de papéis - encontrei o pequeno texto. "personagem" foi publicado, primeiramente, na revista "puçanga", organizada pelo escritor nelson de oliveira. depois fez parte de um especial que o site patife fez sobre a revista.

5.8.05

Pontaria


ela nunca conheceu o paraíso. equilibrada sobre o pé direito, mais uma vez, a menina desistiu da brincadeira. a maldita pedra nunca caía no céu desenhado com giz, no final da amarelinha.

3.8.05

Restos


não preciso da tua moeda. nem do teu pão.
nem centavo. nem casca.
não vivo mais de esmola. nem de migalha.

2.8.05

Pedaço de texto


entre os papéis da gaveta, achei outro texto do caio. só um pedaço dele. tem dias em que algumas coisas parecem existir de propósito. pra mais ninguém. dias em que alguns textos parecem ter sido escritos apenas para uma pessoa. você.


"Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? Danem-se, demônios. Você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida. Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud. É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/ conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.