14.12.05

coração


descalça, a menina andou pela grama molhada. sentindo a água fria entrando pelo meio dos dedos dos pés. entre todos. descalça, queria ver como tinha ficado o céu depois da chuva. o azul já voltava a pintar o escuro. aos poucos. pisando no verde, agora mais vivo, olhou para cima e não encontrou. nada. descalça, voltou para casa cabisbaixa. pra dormir com a certeza de que o vento tinha levado a nuvem em forma de coração. desenho branco e distante, que observou deitada na grama, ainda seca, um pouco antes da tempestade.

9.12.05

banho


eu me esfrego, mas não sai. eu queria tirar de mim esse cinza da cidade poluída, que ficou no meu corpo, mas eu não consigo. não sai. eu me esfrego, eu me escovo, eu quase me derreto debaixo dessa água, no vapor que esconde os espelhos, mas não consigo tirar de mim os restos desta tarde quente e infernal. de luzes piscando, enfeites dourados, árvores gigantes. de corredores cheios. de crianças prendendo a minha saia e esbarrando nas minhas pernas, sem querer, puxadas pelas mães com pressa. pelas mães megeras e ásperas, recusando presentes, doces, sorvetes. fazendo promessas em troca de silêncio. de choro engolido.
continua aqui

5.12.05

Sede


— por que você escreve?
— vou lhe responder com outra pergunta: por que você bebe água?
— por que bebo água? porque tenho sede.
— quer dizer que você bebe água para não morrer. pois eu também: escrevo para me manter viva.


[josé castello pergunta e clarice lispector responde. no globo, em 76]

1.12.05

Ponto


por saber como tudo terminaria, eu rejeitei o futuro. a história fica mesmo por aqui. incompleta. eu, hoje, cortei dois pontos dessas nossas reticências e deixei apenas um. o final.