30.6.06

pedaços


juntei o meu rosto, transformado em cacos - pedaços caídos sobre o chão do quarto. juntei o meu rosto, com pá e vassoura, um pouco depois do espelho quebrado. da imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. recolhi os pedaços de mim, espalhados sobre o tapete, antes de querer me olhar mais uma vez. antes de não encontrar mais o reflexo. antes do desespero de não me enxergar no meio da moldura dourada - sobrevivente pregada na parede do quarto.

24.6.06

aniversário


há trinta anos, de cabeça pra baixo, puxado pelo pé, vendo tudo virado. há tanto tempo, deixado na mesma posição e sem entender nada. querendo saber, desde aquele dia, até quando o mundo ao contrário.

19.6.06

teias


há dias, a gaveta esquecida, lotada de coisas e eu, no entra-e-sai do cômodo fechado. sem olhar para ela. sem mexer nos papéis. matando as palavras, deixadas no escuro. abandonadas no fundo. entre fotos. poemas dos outros. rascunhos meus. a gaveta esquecida no canto do quarto, que hoje reabro. volto. para escancarar as janelas. afastar as cortinas. encher o quarto de ar. volto para bater os lençóis. soprar o pó dos móveis. destruir as teias. eu, hoje, procuro nas gavetas, as palavras que sobreviveram.

3.6.06

boneca


a boneca arrancada da mão, jogada no chão, e eu, puxada pelo braço, fazendo força ao contrário pra não entrar. a brincadeira interrompida, deixada na metade, e eu, arrastada pelos degraus da escada. pé de chinelo perdido. menina-cinderela, trazida pela mãe e colocada quase no altar. bicho exposto sem grades. a boneca jogada no chão, o céu escuro pra desabar, e eu, nessa reza que não pára. na ave-maria repetida e repetida. no pai-nosso sem fim. no abafado, antes da chuva. no cheiro de flores e velas da igrejinha apertada. inferno no meio da terra. o suor pelo canto da testa. o enjôo no meio da barriga e eu, muda, nessa cantoria desafinada. sem saber a letra de nada. nem pedir. nem agradecer. a chuva caindo lá fora, apagando a amarelinha de giz do chão, e eu, com esse terço enfiado na mão. água-benta esfregada na testa. sinais da cruz. bíblia aberta. salmos recitados. santos de gesso me olhando com reprovação. a boneca encharcada, na poça, e eu, apontada pelas velhas gordas. pelos velhos surdos. arrancando o choro da mãe. a cara amarrada do pai. pintando a vergonha-vermelha nas bochechas da irmã. a água nas telhas, encobrindo as vozes e eu, de joelhos sobre o chão gelado. jurando a mentira. garantindo não voltar mais à praça. não soltar mais as tranças. não rasgar mais o vestido no meio da cidade. a enxurrada levando a boneca embora, e eu, sendo castigada. exorcizada pela hipocrisia dos que não suportam mer ver como sou. nua.


publicado, antes, aqui