brancas. ele queria flores brancas, espalhadas por todo o espaço onde os que sentissem alguma coisa por ele pudessem chorar. alguma coisa de triste, eu quero dizer. talvez eu faça mesmo sua última vontade. desta vez, sem ser obrigada. flores brancas. talvez eu saia pra comprar dezenas delas pra serem espalhadas por todo o local onde os que sentem alguma coisa por ele possam chorar. talvez, depois de terminar de me vestir, eu passe para comprar um monte delas, me equilibrando nos malditos sapatos, que já me apertam, antes mesmo de sair de casa. que descascam a parte de trás dos meus pés, a cada passo. eu deveria ter saído para comprar as flores, antes de me prender no aperto deste vestido preto. antes de tirar as pequenas manchas de mofo, espalhadas pela roupa, que, hoje, não suporta oito quilos a mais. eu nunca deveria ter parado de enfiar o dedo no meio da garganta, depois dos meus jantares, como fiz durante tantos anos. ver as sobremesas, boiando no meio do vaso, teria me garantido uma situação mais confortável dentro deste vestido que, hoje, me prende. me aperta. me sufoca. que me faz suar, em frente ao espelho, sem que dê conta de retocar a maquiagem. batom vermelho seria demais? cabelos soltos. não. presos. não. cabelos soltos, assim, como que para uma festa. porque, no fundo, eu comemoro. porque, no fundo, eu me senti bem, quando fui chamada por uma das vizinhas dele, nesta manhã. eu me senti aliviada ao perceber o cheiro forte já no corredor. vingada, ao abrir a porta e o ver caído no meio da sala. de cara no chão. rodeado por seus gatos imundos. pelos animais encardidos que o acompanharam durante os últimos dias. eu me senti bem ao abrir a porta e olhar aquela sala pela última vez. a maldita sala, onde tudo começava. onde, há anos, quando minha mãe saía e ficávamos sozinhos em casa, ele me colocava ao seu lado no sofá. onde passava suas mãos, ásperas, pela minha perna. onde percorria, com sua boca nojenta, o restante do meu corpo. tudo sobre as almofadas, que ainda são as mesmas e devem guardar, entre a espuma imunda, nosso suor. meu sangue. seu gozo. as lágrimas do depois. sim, cabelos soltos. como que para uma festa. eu, hoje, comemoro a morte de meu pai. e prometo fazer sua última vontade. desta vez, sem ser obrigada. assim que terminar de me vestir, eu sairei, sufocada neste vestido. apertada por estes sapatos. eu comprarei flores para serem espalhadas pelo local onde os que sentem alguma coisa por ele possam chorar. alguma coisa de triste, eu quero dizer. brancas. eu comprarei flores brancas, com prazer.