30.1.07

lâmina


e quando menos se espera, acontece uma outra vez. palavras. promessas. tapete vermelho, estendido por metros, tornando o chão macio. sem obstáculos. maquiando a terra, imunda, que existe por baixo dos sapatos. sempre assim. de repente. quando menos se espera, o caminho, que parecia levar para um lado, oferece outro fim. morro por isso. mais uma vez. por acreditar no que havia me garantido. mentiras entre sorrisos. morro mais uma vez por não imaginar que suas mãos me traziam até aqui. guilhotina. cabeça apoiada, mãos acorrentadas, morro mais uma vez com a queda repentina desta lâmina. golpe que me divide em dois.

24.1.07

anátema


"com meu bisturi, lacero seu peito: amor. rasgo suas costas, minha mão ao mesmo tempo delicada e firme: amor. secciono seu rosto: amor. exponho seus músculos, arranho seus ossos, liberto seu sangue. amor."


[trecho de anátema, em cartaz no sesc paulista. vá ver]

19.1.07

procissão


vocês não sabem de nada. todos vocês, que aplaudem, que assistem à passagem da procissão, enchendo a rua, não sabem de nada. que eu não pedi estas asas, grudadas nas costas. esta roupa que me aperta. esta barra mais longa, que me faz tropeçar a cada passo. vocês acham lindo, mas não imaginam. jogam flores, cantam os hinos, choram pela santa, fazem promessas, pedem milagres, mas não sabem de nada. que estes sapatos me espremem. bolhas nos cantos dos dedos. que o pingar desta vela acesa queima as minhas mãos, a cada minuto. tortura, sem o fetiche. nada. vocês não sabem de nada. todos vocês, que sorriem com a queda deste pequeno anjo, no meio da rua, não sabem que, por dentro, tudo pesa. cruz. joelhos ralados no asfalto, reza cochichada pelo canto da boca. terceira queda e o calvário que nunca chega.

15.1.07

flores brancas


brancas. ele queria flores brancas, espalhadas por todo o espaço onde os que sentissem alguma coisa por ele pudessem chorar. alguma coisa de triste, eu quero dizer. talvez eu faça mesmo sua última vontade. desta vez, sem ser obrigada. flores brancas. talvez eu saia pra comprar dezenas delas pra serem espalhadas por todo o local onde os que sentem alguma coisa por ele possam chorar. talvez, depois de terminar de me vestir, eu passe para comprar um monte delas, me equilibrando nos malditos sapatos, que já me apertam, antes mesmo de sair de casa. que descascam a parte de trás dos meus pés, a cada passo. eu deveria ter saído para comprar as flores, antes de me prender no aperto deste vestido preto. antes de tirar as pequenas manchas de mofo, espalhadas pela roupa, que, hoje, não suporta oito quilos a mais. eu nunca deveria ter parado de enfiar o dedo no meio da garganta, depois dos meus jantares, como fiz durante tantos anos. ver as sobremesas, boiando no meio do vaso, teria me garantido uma situação mais confortável dentro deste vestido que, hoje, me prende. me aperta. me sufoca. que me faz suar, em frente ao espelho, sem que dê conta de retocar a maquiagem. batom vermelho seria demais? cabelos soltos. não. presos. não. cabelos soltos, assim, como que para uma festa. porque, no fundo, eu comemoro. porque, no fundo, eu me senti bem, quando fui chamada por uma das vizinhas dele, nesta manhã. eu me senti aliviada ao perceber o cheiro forte já no corredor. vingada, ao abrir a porta e o ver caído no meio da sala. de cara no chão. rodeado por seus gatos imundos. pelos animais encardidos que o acompanharam durante os últimos dias. eu me senti bem ao abrir a porta e olhar aquela sala pela última vez. a maldita sala, onde tudo começava. onde, há anos, quando minha mãe saía e ficávamos sozinhos em casa, ele me colocava ao seu lado no sofá. onde passava suas mãos, ásperas, pela minha perna. onde percorria, com sua boca nojenta, o restante do meu corpo. tudo sobre as almofadas, que ainda são as mesmas e devem guardar, entre a espuma imunda, nosso suor. meu sangue. seu gozo. as lágrimas do depois. sim, cabelos soltos. como que para uma festa. eu, hoje, comemoro a morte de meu pai. e prometo fazer sua última vontade. desta vez, sem ser obrigada. assim que terminar de me vestir, eu sairei, sufocada neste vestido. apertada por estes sapatos. eu comprarei flores para serem espalhadas pelo local onde os que sentem alguma coisa por ele possam chorar. alguma coisa de triste, eu quero dizer. brancas. eu comprarei flores brancas, com prazer.

6.1.07

medo


eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressucitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala.