10.12.13

nas mãos dos outros





















4.6.13

pequena carta para ser aberta em uma tarde do futuro


agora você pode ter certeza: não volta. o beijo não dado não tem mais sentido. o abraço guardado não tem mais motivo. o palavrão engolido não quer dizer mais nada. não volta, você cansou de ouvir, mas só agora pode ter certeza. a chuva nunca mais fez o mesmo desenho no vidro. o mar nunca mais a mesma pose para a fotografia. sua música preferida só tocou no momento certo naquele dia. o poema deixado para depois, hoje, não vale mais nada. há rimas que mofam. que perdem o significado. consegue entender? agora, acredita? não era autoajuda barata. previsão de cigana mentirosa. horóscopo de jornal vagabundo. conselho de velho morrendo. carta falsa de tarô. não volta. mesmo. e espero que na cópia desta mesma carta a ser aberta, novamente, daqui a dez anos, seja menor o arrependimento. estão lacrados os próximos envelopes. lambidos. selados. trancados, mas eu já aviso: dentro deles, o mesmo texto. não volta - tatue no braço. grude post-its. escreva com carvão pelas paredes. com as unhas compridas arranhando a terra: histórias de verdade não se rebobinam.

30.4.13

...


um dia nos tornamos aquilo que fingimos ser?


5.4.13

no guia da folha



"baszczyn, indicado com o melhor romance (desamores) de autor estreante na primeira edição do prêmio são paulo de literatura, em 2008, volta agora com cuidado com pessoas como eu, um livro onde uma narradora feminina, luísa, tenta organizar um mundo pessoal em colapso. a história toda se passa enquanto o ex-companheiro da narradora bate à porta do apartamento, para onde volta em busca das coisas deixadas para trás na separação. em mais de 200 páginas, luísa desvela um monólogo interior circular, como se sua consciência estivesse presa dentro de uma camisa de força e nem a linguagem fosse capaz de ajudá-la na tarefa de estabelecer sentido, seja a partir das mémórias do passado, seja sobre as experiências físicas e sensoriais do presente. entre ameaças de suicídio, lembranças de traumas da infância e trechos de diálogos, luísa tenta "encontrar na desordem da mente uma força que a faça interromper esse reflexo amador".

[roberto taddei - escritor, jornalista, mestre em escrita criativa pela columbia university, de nova york, professor do curso de pós-graduação em formação de escritores do instituto de ensino superior vera cruz



2.4.13

vida:


golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe, sopro, golpe,  . . .

1.1.13

cuidado com pessoas como eu

 
 
da porta para dentro é o que comumente acontece quando queremos nos referir a coisas íntimas, privadas, subjetivas. só assim sentimos a nossa intimidade protegida: a portas fechadas. essa é a questão que atravessa cuidado com pessoas como eu, de eduardo baszczyn: colocada concretamente na forma de abrir ou não uma porta. vamos à história: uma mulher, luísa, foi abandonada pelo homem que amava. ela está dentro do seu apartamento, enquanto do lado de fora está o homem que a deixou e que bate vigorosamente na porta para entrar e pegar os restos dele. luísa se recusa a abrir a porta e ele, por sua vez, se recusa a parar de bater. e a história deles permanece parada, “sem avanços nem recuos”, na aspereza do não-encontro. cada um de um lado da porta, atrás de seus restos de amor. com essa moldura, inicia-se o monólogo da protagonista. catártico, compulsivo, eloquente, ininterrupto, no qual ela nos fala não só da relação do casal como das reminiscências de sua infância. desabada sobre sua própria história, luísa narra sobretudo sua dor de existir, na qual ela, menina-errada, como ela mesma diz, também se sente abandonada pelos pais: “o inferno pode tomar todas as formas.” trata-se de um relato às vezes cruel, doloroso, pungente; nele, baszczyn nos conduz com mão firme em uma narrativa ágil, bem construída, com toques de lirismo, na qual ele combina a leveza da forma com a intensidade do tema. “algumas pessoas deveriam escolher, enfim, o que querem ser na nossa vida: âncora ou asas?”, diz em algum momento a personagem. este é o segundo romance de eduardo baszczyn. com o primeiro, desamores, ele foi finalista do prêmio são paulo de literatura na categoria estreante. cuidado com pessoas como eu confirma o talento de uma voz autoral que veio para ficar.
 
[livia garcia-roza]
 
 
 
 
meu novo romance está chegando, aos poucos, às livrarias. caso não encontre, encomende com o vendedor. o livro também pode ser comprado pelo site da editora 7letras. exemplares autografados serão vendidos pelo e-mail desamores arroba gmail ponto com, mas apenas a partir de março.

19.9.12

abscessos, tumores, nódulos, pedras


1.8.12

raduan


"ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá insônia como estima; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que antecipa no processo das mudanças: terá mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó do osso, de um branco frio, ou quem sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver."

2.3.12

adélia



"venha sem guarda-chuva / mesmo se estiver chovendo"


29.2.12

valéry



como! isto também sou eu? - disse a serpente retorcendo-se para a ponta longínqua de sua cauda. e ela se espantava de fazê-la remexer-se de tão longe. sua e não sua."

3.12.11

das coisas que destruímos pelo caminho



[porque, às vezes, basta um sopro]


20.7.11

pausa


vim abrir as gavetas. porque palavras também podem mofar, eu sei. vim varrer as teias dos cantos e soprar a camada de pó sobre os móveis, para que a casa não pareça abandonada. vim recolher a pilha de cartas que interrompia a abertura da porta. os envelopes quase desbotados espalhados pela entrada. dar comida aos gatos. jogar o lixo. vim para deixar um bilhete, pendurado no canto do espelho, escrito em letras tortas e apressadas para os que ainda entram neste quarto escuro tateando pelas paredes: estou finalizando o próximo livro. por isso, as gavetas permanecerão fechadas até o ponto final ser colocado no romance. ps: para os que ainda não leram o primeiro, apesar de estar esgotado nas livrarias, existem alguns últimos poucos exemplares em uma estante do outro cômodo. eles podem ser adquiridos por aqui: desamores arroba gmail ponto com. entre uma página e outra do novo livro, ainda sobram forças para aparecer rapidamente no twitter: @baszczyn. em breve, as janelas estarão novamente escancaradas. e haverá luz. e ar. e haverá alimento para que o que está guardado nas gavetas possa sobreviver. até lá.

13.6.11

...





palavras fazem comigo o que bem entendem.




18.5.11

...



qual o fim do caminho que não escolho?


27.4.11

...


você por um corredor sem portas. um labirinto mal construído. uma casa de espelhos que apenas deformam seu reflexo por todas as paredes. você em um parque infantil de beira de estrada. em uma montanha-russa sem freios. em um carrossel colorido que gira em alta velocidade. as pernas soltas em um teleférico de cabos enferrujados atravessando um jardim de cactos. você sem poder parar. rodando em um brinquedo quebrado. o vômito formado no estômago. a ânsia engatilhada na garganta fechando a passagem de um grito. você no escuro. tateando as paredes de cimento. ralando as mãos. tropeçando pela casa abandonada. esfolando os joelhos como em um castigo sobre o milho. você preso do outro lado do vidro observando o outono de cores secas. folhas caídas são um tipo de morte? você acorrentado nos fundos. sem afago, água, comida. mudo por uma coleira que corta os seus latidos. você com insônia, em cima de uma cama de pregos. os fantasmas fora dos armários. as gavetas trancadas. os frascos de remédios vazios. você enxotado por espantalhos. ajoelhado em uma guilhotina. fechado em um quarto com paredes de tecido. você procurando escadas. mas não há nada lá em cima.

20.4.11

vermelho amargo


«dói. dói muito. dói pelo corpo inteiro. principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos, penaliza a memória e se estende pela altura da pele. nada fica sem dor. também os olhos, que só armazenam as imagens do que já fora, doem. a dor vem de afastadas distâncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. não se chora pelo amanhã. só se salga a carne morta.»


[bartolomeu campos de queirós]

5.4.11

adélia




"a uns, deus os quer doentes, a outros quer escrevendo"




3.3.11

...



viver é mais do que posso.


3.2.11

pedras




o que fazer com um bolso cheio de pedras?
pular em um rio ou sair quebrando vidraças?



28.1.11

palavra úmida



a cia. dos homens reestreou, no recife, o espetáculo "palavra úmida". a apresentação leva para uma piscina seis bailarinos, que desenvolvem suas coreografias dentro da água. parte de uma reportagem da folha de pernambuco explica o que as palavras desta gaveta têm a ver com a história: "a montagem conta com projeção de imagens e efeitos especiais, idealizados por murilo malta, também responsável pela cenografia. o teatrólogo joão denys emprestou sua voz para narrar o texto "na água", do escritor paulista eduardo baszczyn. a trilha sonora é predominantemente instrumental. destaque para uma canção especialmente concebida para a abertura do espetáculo, criação do músico pernambucano mário lobo e para edson cordeiro, que assina a única música cantada". se estiver no recife, corra ver!


na água

eu piso no que sobrou do choro.
eu piso no que sobrou da chuva. enfio meus pés no suor que escorreu do meu corpo. na água que nasceu pura. na sujeira saída do banho. eu piso no caldo. na mistura. é nela que me fortaleço. na água que entra pelos vãos dos meus dedos. na que sobe até a cintura. é nela que eu me inundo. com ela que eu cresço. como raiz que se alimenta do que está no vaso, absorvo de volta o que transbordei. lágrimas de amores errados. saliva caída de beijos. suor escorrido pelas costas. medos que transpirei. eu piso no que já foi tempestade e agora é poça. na água que já foi benta e agora é profana. eu piso no que já foi batismo e agora é pecado. no transparente que agora é opaco. é na mistura que me fortaleço. eu piso. sugo. engulo. tomo de volta o que já foi meu. o que veio com a chuva. o que a corrente não levou. o que ainda não secou. eu me encho. me derramo. eu piso na água pra poder mudar com a lua. balançar como onda. acompanhar a maré. eu piso na água pra poder voltar para o lugar de onde fui expulso. pro úmido. silêncio escuro do útero. eu piso na água pra renascer.


18.1.11

dos livros de física:


para cada ação, uma reação contrária na mesma intensidade.


6.1.11

ana c. c.



/inéditos e dispersos, pág 196/


29.12.10

talvez seja bom que você saiba que


eu: coleciono rancores. desejo coisas ruins. cuspo na maioria dos pratos que já mataram a minha fome. gosto da inveja. da cobiça. de planos mirabolantes para destruir quem precisa ser derrubado. as peças inúteis que obstruem caminhos no tabuleiro onde sobrevivo. eu: acho o amargo melhor do que o doce. a vingança mais sábia do que o perdão. o olho por olho mais justo do que a inocência rídicula da compaixão. eu falo por trás esquentando orelhas. beijo faces indigestas com a doçura de judas. escondo raiva atrás de silêncios. ódio debaixo de sorrisos. as facas afiadas nas mãos para trás. há anos, envio buquês que escondem plantas carnívoras. cartas com artefatos explosivos. flores de mentira que espirram água no meio das caras. gosto da umidade das cavernas. do escuro dos quartos fechados. do silêncio das ruínas. do vazio das gavetas mofadas. eu: preciso do sossego do meu ninho. das outras cobras perigosas. eu: se for cutucado, aviso: não há antídoto pro meu tipo de veneno.

19.12.10

...


deste lado do mundo, a noite chega mais cedo. e é na cegueira do escuro que a memória mais gosta de sair à caça.

15.12.10

mar


na burrice desesperada da fome, morro abocanhando sempre os mesmos anzóis.

8.12.10

joão c. de m. n.


"assim como uma faca, que sem bolso ou bainha se transformasse em parte de vossa anatomia. qual uma faca íntima ou faca de uso interno, habitando num corpo como o próprio esqueleto de um homem que o tivesse. e sempre, doloroso, de um homem que se ferisse contra seus próprios ossos".

3.12.10

roma, outono de dois mil e dez


vi um homem roubando desejos do fundo de uma fonte.


23.11.10

...



há beleza nas coisas mortas?



18.10.10

uma quarta capa


"escrevo em folhas de papel. você recolhe e guarda, temendo desaparecerem. alguma coisa se perderia se elas nunca fossem lidas? talvez nada, porque escrevo apenas para me livrar da memória. esses rabiscos são o meu esquecimento. lembra as pinturas rupestres nas paredes da caverna que visitamos? alguém desejava livrar-se da memória que o incomodava e pôs-se a desenhar e pintar nas pedras. escrever é a maneira mais simples de morrer, embora muitos achem que é o único modo de permanecer vivo."



[ronaldo correia de brito, na quarta capa de 'retratos imorais']

29.9.10

...


às vezes é preciso dar de comer à alegria.
pra que ela não amanheça morta na gaiola.