7.5.08

palavras


"todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. flores. lua. olhos. lábios. eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. eu não consigo".

[victor shklovsky]

24.4.08

armadilha


se você não percebeu que os dois lados se juntavam, aos poucos, todos os dias, por que saiu antes? por que me disse que este era o nosso refúgio, sabendo que ele se tranformava a cada minuto? sabendo que um dia ele se fecharia, por completo. armadilha. por que prometeu ficar por perto se, no final, acabou me deixando ser engolido? sozinho. morto pelo que era flor e virou planta carnívora.

15.4.08

da gaveta para a piscina


há coisas desta gaveta que vão parar em outros lugares. alguns deles curiosos, como o fundo de uma piscina. pioneira da dança contemporânea no recife, a cia. dos homens estreou, na última semana, o espetáculo "palavra úmida". a montagem leva para dentro de uma piscina seis bailarinos, desenvolvendo suas coreografias na água, tema central do espetáculo. um trecho da matéria da folha de pernambuco explica o que esta gaveta tem a ver com a história: "a montagem conta com projeção de imagens captadas pelo videasta gaúcho e efeitos especiais idealizados por murilo malta, também responsável pela cenografia. o teatrólogo joão denys emprestou sua voz para narrar o poema "na água", do escritor paulista eduardo baszczyn. a trilha sonora é predominantemente instrumental. destaque para uma canção especialmente concebida para a abertura do espetáculo, criação do músico pernambucano mário lobo e para edson cordeiro, que assina a única música cantada".


na água

eu piso no que sobrou do choro.
eu piso no que sobrou da chuva. enfio meus pés no suor que escorreu do meu corpo. na água que nasceu pura. na sujeira saída do banho. eu piso no caldo. na mistura. é nela que me fortaleço. na água que entra pelos vãos dos meus dedos. na que sobe até a cintura. é nela que eu me inundo. com ela que eu cresço. como raiz que se alimenta do que está no vaso, absorvo de volta o que transbordei. lágrimas de amores errados. saliva caída de beijos. suor escorrido pelas costas. medos que transpirei. eu piso no que já foi tempestade e agora é poça. na água que já foi benta e agora é profana. eu piso no que já foi batismo e agora é pecado. no transparente que agora é opaco. é na mistura que me fortaleço. eu piso. sugo. engulo. tomo de volta o que já foi meu. o que veio com a chuva. o que a corrente não levou. o que ainda não secou. eu me encho. me derramo. eu piso na água pra poder mudar com a lua. balançar como onda. acompanhar a maré. eu piso na água pra poder voltar para o lugar de onde fui expulso. pro úmido. silêncio escuro do útero. eu piso na água pra renascer.

8.4.08

bolas coloridas


mas um dia, você pode ter certeza, o desequilíbrio irá atrapalhar essa sua destreza. interromper suas acrobacias. seus truques. manobras. um dia, esse seu número chegará ao fim, de repente. espetáculo encerrado, de uma hora para outra, pelas bolas coloridas espalhadas pelo chão. um dia, enquanto estiver recolhendo uma por uma, entre tantas vaias, você irá se arrepender. jurar nunca mais fazer malabarismos por tanto tempo com os sentimentos de quem já o aplaudiu.

2.4.08

clarice


"escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não ha lugar para mim na terra dos homens. escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos."

1.4.08

sessão da tarde



"quem vai pensar em você quando eu estiver morta?"

[o passado, hector babenco]

23.3.08

meio


é o seu medo? por que, então, viver no meio se você pode escolher entre o céu e o inferno?

13.3.08

buraco


no meio do jardim, o buraco gigantesco. cavado, às pressas, porque me disseram que seria a única solução. esperar dentro dele que a terra caísse de volta. avalanche que me encobriria aos poucos. no meio do jardim, o buraco enorme. cavado porque me garantiram que não haveria mais jeito. não adiantava podar, regar, replantar. eu já era raiz morta. ramificações em decomposição. caule comido por cupins. folhas arrancadas por criança maldosa. não adiantava me colocar no canto da janela. debaixo do sol. forçar fotossíntese. minha vida já era fruto bicado por passarinho. maçã cheia de bichos caída sobre a grama. ainda vivo, mas apodrecido. no meio do jardim, o buraco giganteco. é dentro dele que eu espero. me disseram que seria o único jeito. voltar a ser semente e começar tudo outra vez.

4.3.08

mosaico


juntei meu rosto, transformado em cacos - pedaços caídos sobre o chão do quarto. juntei o meu rosto, com pá e vassoura, depois do espelho quebrado. da imagem dividida ao meio pelo trincar inesperado. recolhi os pedaços de mim, depois de não encontrar mais o reflexo. de não me enxergar no meio da moldura dourada - sobrevivente pregada na parede do quarto. juntei meu rosto, colei os pedaços, sem me reconhecer no estranho mosaico que acabou sendo criado.

29.2.08

sessão da tarde


"dizem que existe um tipo de pássaro que não tem pernas. ele nunca pára de voar. quando se cansa, dorme no vento. este pássaro só pousa uma vez na vida. quando ele morre"

[dias selvagens, wong kar-wai]

23.2.08

ele


foi ele quem envenenou a sua bebida. duas gotas misturadas a dois dedos de vinho no fundo do copo. foi ele quem te quis assim, encolhida sobre o tapete. sentindo o frio entrar por debaixo da porta. foi ele. ele quem cortou os seus pulsos, antes de ir embora vendo o sangue manchar seu vestido e escorrer até os espaços entre as madeiras do chão. foi ele quem tirou sua comida. levou sua água. fechou suas cortinas para que ficasse no escuro. sem luz. foi ele quem te quis assim, quase morta. mas você é teimosa. você não apodrece.


[trecho de
desamores]

14.2.08

banquete


por que o espanto se está tudo como você queria? toalha esticada. talhares paralelos. a faca afiada para um corte preciso. por que o assombro se está tudo como você desejava? taças cheias. louça preparada. castiçal iluminando a sala. sombra projetada na parede vazia. por que o susto? a boca escancarada. os olhos arregalados depois da tampa aberta? não era isso o que você queria? o que desejava desde o início? pois o banquete está servido. prato principal no centro da mesa. minha cabeça sobre a bandeja de prata.

6.2.08

quarta-feira


não se assuste com o silêncio. não há mais ninguém brincando pelas ruas. cantando alto. pisando sobre confetes. não se assuste com o espelho. é você mesma. a máscara não esconde mais as rugas. traços fundos, espalhados pelo rosto. caminhos desenhados sobre a pele, todos os dias. é você. o perfume não camufla mais seu cheiro. a fantasia não oculta mais o seu mau gosto. o sossego, no lugar da música, revela as bobagens que sempre diz. agora, todos ouvem sua ignorância. não se espante. a bebida não disfarça mais o amargo da saliva. não vomite o que engole. este gosto é o seu. esta é você. por isso não se assuste com o espelho. com o silêncio. com seu gosto. seu cheiro. é você. sem trapos coloridos pendurados pelo corpo. sem truques. é o seu reflexo. tente olhar por alguns segundos. sem medo. esta é apenas você. nua.

21.1.08

separação


no fim, o que sobra é como cortiça de menina. de moça que muda de quarto. levam os sorrisos com as fotos, mas deixam sempre os alfinetes. fincados.

13.1.08

quebra-cabeça


só ficava mais tranqüila porque, assim, de longe, ninguém percebia. nessa distância, ela era figura inteira. paisagem. quebra-cabeça montado. idêntica ao desenho da caixa. só ficava mais tranqüila por saber que ninguém chegava tão perto a ponto de descobrir. agradecia ao vício dos olhos dos outros que, de longe, formava a figura inteira. mais tranqüila só por isso. por saber que, nessa distância, ninguém nunca veria que era incompleta. que faltava uma pequena peça bem no meio de tudo.